Os Dez Mandamentos explicados: o que cada um significa na prática
O que dizem os Dez Mandamentos em Êxodo 20 e Deuteronômio 5 e como o Catecismo da Igreja explica cada um deles na vida do dia a dia.

Os Dez Mandamentos estão entre os textos mais conhecidos da Bíblia. Mas o que eles dizem exatamente, de onde vêm e o que significam hoje na vida de um cristão? Neste artigo você encontra o texto bíblico na tradução da CNBB, a forma resumida usada na catequese e uma explicação simples de cada mandamento, com base no Catecismo da Igreja Católica.
De onde vêm os Dez Mandamentos
A palavra Decálogo, outro nome dos Dez Mandamentos, significa literalmente “dez palavras”. O Catecismo lembra que Deus revelou essas palavras ao seu povo na montanha sagrada e que elas nos foram transmitidas em dois livros do Antigo Testamento: Êxodo 20,1-17 e Deuteronômio 5,6-21 (Catecismo, §2056).
O contexto é decisivo. Os mandamentos não aparecem como uma lista solta de proibições, mas dentro da história da libertação do Egito e da Aliança que Deus faz com Israel no monte Sinai, também chamado Horeb. Por isso a primeira frase não é uma ordem, e sim uma lembrança do que Deus já fez: “Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da escravidão” (Êx 20,2). Segundo o Catecismo, as “dez palavras” indicam as condições de uma vida liberta da escravidão do pecado: o Decálogo é um caminho de vida (§2057; §2061-2062).
O próprio Deuteronômio conta que o Senhor proclamou essas palavras do meio do fogo e as escreveu em duas tábuas de pedra, entregues a Moisés (Dt 5,22). O Catecismo acrescenta que essas tábuas eram chamadas “o testemunho”, porque continham as cláusulas da Aliança, e foram guardadas na Arca (§2058).
O texto de Êxodo 20
Este é o texto dos mandamentos em Êxodo 20,2-17, na tradução da CNBB:
“Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante dos ídolos, nem lhes prestarás culto, pois eu sou o SENHOR teu Deus, um Deus ciumento. Castigo a culpa dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas uso de misericórdia por mil gerações para com os que me amam e guardam os meus mandamentos.
Não pronunciarás o nome do SENHOR teu Deus em vão, porque o SENHOR não deixará sem castigo quem pronunciar seu nome em vão.
Lembra-te de santificar o dia do sábado. Trabalharás durante seis dias e farás todos os trabalhos, mas o sétimo dia é sábado, descanso dedicado ao SENHOR teu Deus. Não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu gado, nem o estrangeiro que vive em tuas cidades. Porque em seis dias o SENHOR fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; mas no sétimo dia descansou. Por isso o SENHOR abençoou o dia do sábado e o santificou.
Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos na terra que o SENHOR teu Deus te dará.
Não matarás.
Não cometerás adultério.
Não furtarás.
Não darás falso testemunho contra o teu próximo.
Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma do que lhe pertença.”
(Êx 20,2-17)
O texto de Deuteronômio 5 é quase idêntico, com duas diferenças que chamam a atenção. A primeira está no mandamento do sábado: em vez de lembrar a criação, ele lembra a libertação: “Lembra-te de que foste escravo no Egito, mas o SENHOR teu Deus te tirou de lá com mão forte e braço estendido” (Dt 5,15). O Catecismo vê aqui a força libertadora do Decálogo, já que o descanso vale também para os escravos e os estrangeiros (§2057). A segunda está no final: o Deuteronômio coloca primeiro “Não desejarás a mulher do próximo” e só depois “Não cobiçarás a casa do próximo” (Dt 5,21).
Por que a numeração católica é diferente
A Bíblia não numera os mandamentos, e por isso a divisão das “dez palavras” variou ao longo da história. O Catecismo explica que a Igreja Católica segue a divisão estabelecida por Santo Agostinho, que se tornou tradicional no catolicismo e é também a das confissões luteranas. Os Padres gregos fizeram uma divisão um pouco diferente, conservada nas Igrejas ortodoxas e nas comunidades reformadas (§2066).
Na divisão católica:
- a proibição de fazer ídolos faz parte do primeiro mandamento, que manda adorar só a Deus;
- o desejo da mulher do próximo e a cobiça dos bens do próximo formam dois mandamentos distintos, o nono e o décimo. O próprio Catecismo diz que, segundo a tradição catequética católica, o nono mandamento proíbe a concupiscência carnal e o décimo, a cobiça dos bens alheios (§2514).
E as imagens de Jesus, de Nossa Senhora e dos santos? O Catecismo responde que o culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. Com a Encarnação, o Filho de Deus se fez visível, e o II Concílio de Niceia (ano 787) defendeu a veneração dos ícones. A honra prestada a uma imagem é veneração respeitosa, não adoração, que só a Deus se deve: quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada (§2129-2132).
A forma resumida da catequese
Para facilitar a memorização, a catequese usa há séculos fórmulas curtas. O Catecismo registra que, desde o século XV, existe o costume de exprimir os mandamentos em fórmulas fáceis de decorar (§2065). Esta é a Fórmula da Catequese apresentada no Compêndio do Catecismo:
- Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas.
- Não invocar o santo nome de Deus em vão.
- Santificar os domingos e festas de guarda.
- Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
- Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo).
- Guardar castidade nas palavras e nas obras.
- Não furtar (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
- Não levantar falsos testemunhos (nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo).
- Guardar castidade nos pensamentos e desejos.
- Não cobiçar as coisas alheias.
O mesmo quadro conclui: estes dez mandamentos se resumem em dois, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Duas tábuas, um só amor
Quando perguntaram a Jesus qual era o maior mandamento da Lei, ele respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos” (Mt 22,37-40).
Por isso o Catecismo ensina que o Decálogo deve ser lido à luz desse duplo mandamento da caridade (§2055). Os três primeiros mandamentos tratam sobretudo do amor a Deus; os outros sete, do amor ao próximo. Santo Agostinho comparava essa divisão às duas tábuas da Lei: três mandamentos escritos numa, sete na outra (§2067).
Cada mandamento na prática
A seguir, uma explicação simples de cada mandamento, com base nos resumos que o Catecismo apresenta ao final de cada artigo.
1º Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas
O primeiro mandamento chama a pessoa a crer em Deus, esperar nele e amá-lo acima de tudo (§2134). Na prática, isso se traduz em adorar a Deus, rezar, prestar-lhe o culto devido e cumprir as promessas feitas a ele (§2135). O Catecismo aponta como pecados contra este mandamento a superstição, a idolatria, as formas de adivinhação e magia, além do sacrilégio, da simonia e do ateísmo (§2138-2140). Em linguagem de hoje: nada, nem dinheiro, nem sucesso, nem pessoa alguma, pode ocupar o lugar de Deus.
2º Não invocar o santo nome de Deus em vão
Este mandamento pede respeito pelo nome do Senhor, que é santo (§2161). Ele proíbe o uso inconveniente do nome de Deus, e o Catecismo cita a blasfêmia, que é usar de modo injurioso o nome de Deus, de Jesus Cristo, da Virgem Maria e dos santos (§2162). Também proíbe o juramento falso, que chama Deus como testemunha de uma mentira (§2163). O lado positivo: o cristão começa suas orações e atividades com o sinal da cruz, “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (§2166).
3º Santificar os domingos e festas de guarda
No Antigo Testamento, o dia santo era o sábado. Para os cristãos, o domingo, dia da Ressurreição de Cristo, substitui o sábado e realiza plenamente o seu sentido (§2175; §2190-2191). Na prática, o Catecismo indica duas coisas: participar da Missa aos domingos e nos dias santos de preceito (§2180; §2192) e evitar trabalhos e negócios que impeçam o culto a Deus, a alegria própria do Dia do Senhor e o descanso devido ao corpo e ao espírito (§2185; §2193). Necessidades familiares ou uma grande utilidade social podem justificar exceções (§2185).
4º Honrar pai e mãe
É o primeiro mandamento da “segunda tábua”. Deus quis que, depois dele, honrássemos nossos pais e aqueles que, para o nosso bem, ele revestiu de autoridade (§2197; §2248). Os filhos devem aos pais respeito, gratidão, obediência justa e ajuda (§2251). O mandamento também vale no sentido inverso: os pais são os primeiros responsáveis pela educação dos filhos na fé, na oração e nas virtudes (§2252). O Catecismo estende o mandamento à vida em sociedade: os cidadãos devem colaborar com o bem comum, mas não são obrigados a seguir leis contrárias à ordem moral, porque é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens (At 5,29; Catecismo, §2255-2256).
5º Não matar
Toda vida humana, da concepção até a morte natural, é sagrada, porque a pessoa foi criada à imagem e semelhança de Deus (§2319). O Catecismo explica que este mandamento proíbe o homicídio, o aborto direto, a eutanásia e o suicídio (§2320-2325). Também reconhece a legítima defesa (§2321) e pede que se faça todo o possível para evitar a guerra (§2327). Na prática, o mandamento vai além de não tirar a vida: pede também cuidado razoável com a vida e a saúde, que são dons de Deus (§2288), e atenção para não levar ninguém a pecar, o que o Catecismo chama de escândalo (§2326).
6º Guardar castidade nas palavras e nas obras
O Catecismo lembra que o amor é a vocação fundamental de todo ser humano (§2392). A castidade é a integração da sexualidade na pessoa, aprendida pelo autodomínio, e todo batizado é chamado a vivê-la de acordo com o seu estado de vida, seja casado, solteiro ou consagrado (§2394-2395). Para os esposos, o mandamento pede um amor fiel, que guarda o matrimônio indissolúvel; o adultério é a ofensa que o próprio texto bíblico nomeia (§2397; §2400).
7º Não furtar
O sétimo mandamento proíbe tomar ou reter injustamente o bem do outro e pede justiça e caridade no uso dos bens e dos frutos do trabalho (§2401; §2451). Quem tomou algo injustamente tem o dever de reparar e restituir (§2454). O Catecismo amplia o alcance do mandamento: os bens da criação têm um destino universal (§2452), o cuidado com a natureza envolve responsabilidade com as gerações futuras (§2456) e a esmola aos pobres é uma prática de justiça que agrada a Deus (§2462).
8º Não levantar falso testemunho
Este mandamento proíbe falsificar a verdade nas relações com os outros (§2464). A mentira consiste em dizer o que é falso com a intenção de enganar (§2508), e o respeito ao bom nome das pessoas proíbe a maledicência e a calúnia (§2507). Uma falta contra a verdade exige reparação (§2509). O Catecismo também fala do dever de guardar segredos profissionais e de que a sociedade tem direito a uma informação fundada na verdade (§2511-2512), um ponto bem atual na era das redes sociais.
9º Guardar castidade nos pensamentos e desejos
O nono mandamento olha para o coração. Ele nos previne contra a concupiscência carnal (§2529), lembrando a palavra de Jesus de que o adultério pode ser cometido já no coração (Mt 5,28; Catecismo, §2528). O caminho proposto é a pureza de coração, que se cultiva com a oração, a castidade, a pureza de intenção e do olhar e a virtude do pudor (§2530-2533).
10º Não cobiçar as coisas alheias
O último mandamento completa o nono e também trata do interior: ele proíbe a cobiça desordenada das riquezas e do poder (§2552). O Catecismo explica que a cobiça é a raiz do roubo e da fraude (§2534) e descreve a inveja como a tristeza diante do bem do outro, um vício capital que se combate com benevolência, humildade e confiança na Providência (§2553-2554). Como disse Jesus: “Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21; Catecismo, §2551).
Os mandamentos ainda valem hoje?
Sim. Ao jovem rico que perguntou o que fazer para ter a vida eterna, Jesus respondeu: “Se queres entrar na vida, observa os mandamentos” (Mt 19,17). Logo depois, convidou-o a ir além e segui-lo (Mt 19,21). O Catecismo comenta que essa segunda resposta não anula a primeira: seguir Jesus implica cumprir os mandamentos (§2053).
A Igreja ensina ainda que:
- o Decálogo é uma expressão privilegiada da lei natural, que a razão pode reconhecer, mas que Deus quis revelar para que a conhecêssemos com segurança (§2070-2071);
- os mandamentos formam um todo: cada um remete aos outros, e não é possível amar a Deus sem amar o próximo, nem honrar o próximo sem louvar a Deus (§2069);
- em seu conteúdo fundamental, eles exprimem obrigações graves, imutáveis e válidas sempre e em toda parte, embora também incluam matérias que, em si mesmas, são leves (§2072-2073).
Por fim, o Catecismo deixa uma frase de esperança, que resume tudo: aquilo que Deus manda, ele o torna possível pela sua graça (§2082).