São João de Capistrano: do governo de Perúgia à defesa de Belgrado
Jurista, governador e prisioneiro, João de Capistrano virou frade, pregador e reformador franciscano, e esteve na defesa de Belgrado em 1456.

No dia 23 de outubro a Igreja faz memória de São João de Capistrano, frade franciscano, pregador e reformador da sua Ordem, que morreu nesse mesmo dia em 1456. O Calendário Romano Geral o celebra como memória facultativa. No mesmo dia, o santoral recorda também São Severino Boécio, filósofo romano martirizado em 524, autor de A consolação da filosofia.
Um jovem jurista no Reino de Nápoles
João nasceu em Capistrano (Capestrano), na região italiana dos Abruzos, então parte do Reino de Nápoles, em 1385 ou 1386 (as fontes divergem quanto ao ano). Segundo a Catholic Encyclopedia, o pai chegou a Nápoles no séquito de Luís de Anjou e era de origem estrangeira; há quem o diga francês, há quem o diga alemão. Como ele morreu cedo, foi a mãe quem cuidou da educação do filho.
João estudou Direito em Perúgia, onde se destacou como aluno do jurista Pietro de Ubaldis. A carreira foi rápida: em 1412, o rei Ladislau de Nápoles o nomeou governador de Perúgia, cargo em que combateu a corrupção e o suborno na administração da cidade.
A prisão que mudou tudo
Em 1416, durante a guerra entre Perúgia e a família Malatesta, João foi enviado como embaixador para propor a paz. Os Malatesta o prenderam. Foi no cárcere, conta a Catholic Encyclopedia, que ele começou a pensar seriamente na salvação da própria alma; o Vatican News resume assim: “Na prisão, descobriu que o Senhor o chamava”.
Antes da guerra, João havia se casado com uma rica senhora de Perúgia, mas o casamento não chegou a ser consumado, e ele obteve a dispensa necessária para abraçar a vida religiosa. Segundo a tradição registrada pela Catholic Encyclopedia, depois de um sonho em que São Francisco o convidava a entrar na sua Ordem, João ingressou entre os Frades Menores em 4 de outubro de 1416, festa de São Francisco.
Discípulo de São Bernardino de Sena
No convento, João teve como mestre e amigo São Bernardino de Sena, com quem estudou Teologia e de quem aprendeu o modo de pregar. Recebeu licença para pregar em 1420, ainda diácono, e, depois de ordenado sacerdote, começou em 1425 uma intensa vida apostólica.
Pregava sobretudo no Advento e na Quaresma, e eram tantas as pessoas que vinham ouvi-lo que muitas vezes precisava pregar em praças públicas. A Catholic Encyclopedia relata que, em Brescia, chegou a reunir cerca de 126 mil ouvintes. As pregações provocavam conversões e renovavam a vida cristã das cidades por onde passava.
Com Bernardino, João difundia a devoção ao Santo Nome de Jesus, representado pelo monograma IHS. A devoção atraiu acusações de heresia: em 1429, João e outros frades foram chamados a Roma, e ele próprio fez a defesa do grupo, que acabou absolvido por uma comissão de cardeais.
“Coluna da Observância”
O século XV foi um tempo de crise e de reforma para os franciscanos, divididos entre os Conventuais e os Observantes, que buscavam viver a Regra de São Francisco com mais rigor. João teve papel central nesse movimento: participou da tentativa do Papa Martinho V de unir os dois ramos, em Assis (1430), presidiu um capítulo em Bolonha no ano seguinte e contribuiu para que São Bernardino fosse escolhido vigário-geral dos Observantes, em 1438.
Também se empenhou em combater os chamados fraticelli, grupos que se apresentavam como seguidores da Regra franciscana, mas difundiam doutrinas declaradas heréticas pela Igreja. Por todo esse trabalho, ficou conhecido como “Coluna da Observância”. Recebeu ainda a missão de combater a prática da usura.
A serviço dos papas pela Europa
João de Capistrano foi enviado várias vezes em missões da Santa Sé. Em 1439, foi legado em Milão e na Borgonha contra o antipapa Félix V; em 1446, esteve em missão junto ao rei da França. Em 1451, a pedido do imperador e por mandato do Papa Nicolau V, partiu para a Áustria como núncio apostólico, acompanhado de doze companheiros, para pregar e combater as heresias que se propagavam na Europa central, especialmente a dos hussitas. A pedido do rei Casimiro IV, visitou também a Polônia.
Belgrado, 1456
Em 1453, a queda de Constantinopla diante dos turcos otomanos espalhou pela cristandade o temor de novos avanços sobre a Europa. Em 1454, João participou da Dieta de Frankfurt, que discutiu uma cruzada para socorrer a Hungria, a região mais exposta à ameaça.
O frade, já idoso, passou a percorrer a Europa central pregando e reunindo voluntários, com grande repercussão entre os húngaros. Em 1456, quando o sultão Maomé II cercou Belgrado, João seguiu para lá com os cruzados que havia reunido e, ao lado do comandante húngaro João Hunyadi, conduziu a ala esquerda do exército cristão. O cerco foi rompido e a cidade, libertada.
Exausto e atingido pela peste, João de Capistrano morreu poucos meses depois, no convento franciscano de Ilok, na atual Croácia, em 23 de outubro de 1456.
Canonização e memória
João de Capistrano foi canonizado em 16 de outubro de 1690, no pontificado de Alexandre VIII, numa mesma celebração com outros quatro santos: São João de Deus, São João de Sahagún, São Lourenço Justiniano e São Pascoal Bailão. Um documento de 13 de novembro daquele ano, conservado no arquivo dos franciscanos do Tirol, registra a licença do papa para que se celebrasse a oitava da canonização de João de Capistrano e Pascoal Bailão. Algumas obras de referência mais antigas, como a Catholic Encyclopedia, indicam o ano de 1724.
Hoje a sua memória está inscrita no Calendário Romano Geral no dia 23 de outubro, data da sua morte. Desde 1984, São João de Capistrano é também padroeiro dos capelães militares.
São João de Capistrano, rogai por nós!


