São João Paulo II: vida, pontificado e canonização do papa polonês
Da Polônia ocupada ao trono de Pedro: a vida de Karol Wojtyła, seus quase 27 anos de pontificado e o caminho até a canonização em 2014.

No dia 22 de outubro a Igreja celebra a memória de São João Paulo II. A data não é a do seu nascimento nem a da sua morte: é o dia, em 1978, em que ele deu início ao seu ministério como Pastor universal da Igreja, com a Missa celebrada na Praça de São Pedro.
Infância e juventude em Wadowice
Karol Józef Wojtyła nasceu em 18 de maio de 1920, em Wadowice, na Polônia. Era o mais novo dos três filhos de Karol Wojtyła, suboficial do exército, e de Emilia Kaczorowska. Os lutos marcaram cedo a família: a mãe morreu em 1929; o irmão mais velho, Edmund, que era médico, em 1932; e o pai, em 1941.
Terminados os estudos em Wadowice, em 1938 Karol se matriculou na Universidade Jaguelônica de Cracóvia.
A guerra e o seminário clandestino
Em 1939, as forças de ocupação nazistas fecharam a universidade. Entre 1940 e 1944, o jovem Karol trabalhou numa pedreira e depois na fábrica química Solvay, para sobreviver e evitar a deportação.
Foi nesse período que amadureceu sua vocação. A partir de 1942, passou a frequentar os cursos de formação do seminário maior clandestino de Cracóvia, dirigido pelo arcebispo Adam Stefan Sapieha. Foi ordenado sacerdote em Cracóvia, em 1º de novembro de 1946.
Sacerdote, bispo e cardeal
Logo após a ordenação, foi enviado a Roma, onde obteve o doutorado em Teologia (1948) com uma tese sobre a fé nas obras de São João da Cruz. De volta à Polônia, foi vigário paroquial em Niegowić e depois na paróquia de São Floriano, em Cracóvia, além de capelão dos universitários até 1951. Mais tarde, lecionou Teologia Moral e Ética no seminário maior de Cracóvia e na Faculdade de Teologia de Lublin.
Em 4 de julho de 1958, o Papa Pio XII o nomeou bispo auxiliar de Cracóvia; recebeu a ordenação episcopal em 28 de setembro daquele ano, na catedral de Wawel. Em 13 de janeiro de 1964, São Paulo VI o nomeou arcebispo de Cracóvia e, em 26 de junho de 1967, o criou cardeal.
Participou do Concílio Vaticano II (1962–1965), primeiro como bispo auxiliar e depois como arcebispo, e deu uma contribuição importante para a elaboração da Constituição pastoral Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo de hoje.
Seu lema episcopal, depois mantido como papa, foi Totus tuus (“Todo vosso”), que corresponde a uma conhecida frase de São Luís Maria Grignion de Montfort dirigida a Nossa Senhora. Seu brasão traz uma cruz de ouro e a letra “M”, de Maria.
“Não tenhais medo!”: um pontificado de quase 27 anos
Depois da morte de João Paulo I, o cardeal Wojtyła foi eleito papa em 16 de outubro de 1978. Foi o primeiro papa não italiano em 455 anos, desde Adriano VI, e o primeiro papa polonês da história.
Na homilia de início do pontificado, em 22 de outubro de 1978, pronunciou as palavras que ficariam associadas a ele:
“Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas econômicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso!”
O pontificado foi um dos mais longos da história, o terceiro depois dos de São Pedro e do Beato Pio IX. Alguns números dão a medida desse ministério:
- 104 viagens apostólicas pelo mundo e 146 visitas pastorais na Itália;
- 14 encíclicas, 15 exortações apostólicas, 11 constituições apostólicas e 45 cartas apostólicas;
- promulgação do Catecismo da Igreja Católica e dos Códigos de Direito Canônico latino e das Igrejas orientais;
- 147 celebrações de beatificação (1.338 beatos) e 51 de canonização (482 santos);
- instituição da Jornada Mundial da Juventude, cuja primeira edição aconteceu em Roma, em 1985;
- convocação do Ano da Redenção, do Ano Mariano, do Ano da Eucaristia e do Grande Jubileu do ano 2000.
Bento XVI resumiu assim a mensagem central do seu predecessor: “o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem”.
O atentado de 1981
Em 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro, João Paulo II foi gravemente ferido a tiro num atentado. Depois de uma longa convalescença, perdoou o seu agressor, o turco Ali Ağca, e chegou a visitá-lo na prisão, onde os dois tiveram uma longa conversa. Como o atentado ocorreu no dia de Nossa Senhora de Fátima, o papa pediu que a bala que o atingiu fosse colocada na coroa da imagem de Nossa Senhora no Santuário de Fátima.
Sofrimento e morte
Nos últimos anos, a doença foi tirando suas forças, e o seu testemunho no sofrimento tornou-se parte da sua mensagem. Na homilia da beatificação, Bento XVI recordou que “pouco a pouco o Senhor foi-o despojando de tudo, mas permaneceu sempre uma «rocha», como Cristo o quis”.
João Paulo II morreu no Palácio Apostólico do Vaticano em 2 de abril de 2005, às 21h37, véspera do Domingo da Divina Misericórdia, festa que ele mesmo havia instituído. O funeral solene foi celebrado na Praça de São Pedro em 8 de abril, e ele foi sepultado nas Grutas Vaticanas.
O caminho até os altares
Normalmente, uma causa de beatificação só pode ser aberta cinco anos depois da morte. No caso de João Paulo II, a pedido do cardeal Camillo Ruini, vigário de Roma, o Papa Bento XVI dispensou esse prazo, considerando circunstâncias excepcionais. O rescrito da Congregação para as Causas dos Santos, de 9 de maio de 2005, permitiu que a causa começasse imediatamente.
- O milagre da beatificação. Em 14 de janeiro de 2011, Bento XVI aprovou o decreto sobre um milagre atribuído à intercessão de João Paulo II: a cura, sem explicação científica, de uma religiosa francesa de 48 anos, a irmã Marie Simon-Pierre, que sofria do mal de Parkinson.
- A beatificação. Em 1º de maio de 2011, Domingo da Divina Misericórdia, Bento XVI presidiu o rito de beatificação em Roma. Na homilia, explicou que quis que a causa pudesse, “no devido respeito pelas normas da Igreja, prosseguir com discreta celeridade”.
- O milagre da canonização. Em 5 de julho de 2013, o Papa Francisco autorizou a Congregação para as Causas dos Santos a promulgar o decreto sobre um segundo milagre atribuído à intercessão do Beato João Paulo II, o que abriu caminho para a canonização.
- A canonização. Em 27 de abril de 2014, também Domingo da Divina Misericórdia, o Papa Francisco canonizou juntos João XXIII e João Paulo II, na Praça de São Pedro.
Na homilia da canonização, Francisco disse dos dois novos santos que “foram dois homens corajosos, cheios da parresia do Espírito Santo”. E acrescentou sobre o papa polonês: “São João Paulo II foi o Papa da família. Ele mesmo disse uma vez que assim gostaria de ser lembrado: como o Papa da família.”
A memória litúrgica
Pouco depois da canonização, por disposição do Papa Francisco, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos inscreveu São João Paulo II no Calendário Romano Geral, com o grau de memória facultativa no dia 22 de outubro (decreto de 29 de maio de 2014). Na mesma ocasião, São João XXIII foi inscrito no dia 11 de outubro.
São João Paulo II, rogai por nós!


