Liturdia
Vida de santos

São Judas Tadeu: quem foi o apóstolo das causas impossíveis

Apóstolo de Jesus, Judas Tadeu pregou no Oriente e morreu mártir. Conheça sua história e por que é invocado nas causas difíceis e impossíveis.

São Judas Tadeu, pintura de José de Ribera (século XVII): o apóstolo com manto vermelho, auréola e um machado na mão

Poucos santos são tão procurados no Brasil quanto São Judas Tadeu. Igrejas lotadas, novenas e pedidos escritos à mão mostram a confiança de quem o invoca nas situações mais difíceis. Mas quem foi, de fato, esse apóstolo de Jesus? O que a Bíblia diz sobre ele, o que conta a tradição e por que ele se tornou o “santo das causas impossíveis”?

A Igreja celebra São Judas Tadeu no dia 28 de outubro, junto com o apóstolo São Simão. No Calendário Romano Geral, essa celebração tem o grau de festa.

Um dos Doze apóstolos

Judas Tadeu foi um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus. Ele aparece nas quatro listas dos Doze que o Novo Testamento conserva, mas com nomes diferentes:

  • Mateus e Marcos o chamam simplesmente de “Tadeu” (Mt 10,3; Mc 3,18).
  • Lucas o chama de “Judas, filho de Tiago”, tanto no Evangelho quanto nos Atos dos Apóstolos (Lc 6,16; At 1,13).

Na tradução da CNBB, a lista de Lucas termina assim: “Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou o traidor” (Lc 6,16). Nos Atos, ele está entre os onze reunidos na sala de cima, em Jerusalém, depois da Ascensão de Jesus (At 1,13).

Como lembrou o Papa Bento XVI na audiência geral de 11 de outubro de 2006, foi a tradição que uniu os dois nomes, chamando-o de “Judas Tadeu”. Em todas as listas ele aparece ao lado de Simão, o Cananeu ou Zelota, e por isso a Igreja celebra os dois no mesmo dia.

O que significa “Tadeu”?

Segundo Bento XVI, a origem do sobrenome é incerta. Pode vir do aramaico taddà’, que significa “peito”, e daí indicaria alguém magnânimo, de coração grande. Também pode ser a forma abreviada de um nome grego, como Teodoro ou Teódoto.

Na prática, o apelido também ajudava a distinguir este apóstolo do outro Judas do grupo, o Iscariotes, que traiu Jesus. O Evangelho de João faz essa distinção de forma explícita, como veremos a seguir.

A pergunta na Última Ceia

O único momento em que os Evangelhos dão voz a Judas Tadeu está no Evangelho de João, durante o longo discurso de Jesus na Última Ceia. Jesus acabara de dizer que se manifestaria a quem o ama. Então:

“Judas (não o Iscariotes) perguntou-lhe: ‘Senhor, como se explica que tu te manifestarás a nós e não ao mundo?’ Jesus respondeu-lhe: ‘Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada.’” (Jo 14,22-23)

Bento XVI comentou essa passagem na mesma audiência: o Ressuscitado “deve ser visto, sentido também com o coração”. Jesus quer entrar na nossa vida, e por isso a sua manifestação “exige e pressupõe o coração aberto”. Não é um espetáculo para o mundo, mas uma presença no coração de quem ama e guarda a sua palavra.

Parente de Jesus?

A tradição costuma apresentar Judas Tadeu como parente de Jesus. O Vatican News, no santo do dia de 28 de outubro, recolhe a tradição segundo a qual ele seria primo do Senhor: o pai, Alfeu, seria irmão de São José, e a mãe, Maria de Cléofas, parente da Virgem Maria. A coletânea Lives of Saints, reproduzida pela EWTN, também o apresenta como irmão de São Tiago Menor, filho de Cléofas e de Maria.

É importante lembrar que, no mundo bíblico, a palavra “irmão” podia indicar parentes próximos, como primos. A Catholic Encyclopedia observa que o autor da Carta de Judas é contado entre os chamados “irmãos do Senhor” e, citando o historiador antigo Hegesipo (por meio de Eusébio), registra que ele era tido como parente de Jesus “segundo a carne”.

As fontes não são unânimes nesses detalhes. Os próprios textos bíblicos o chamam ora de “filho de Tiago” (Lc 6,16, na tradução da CNBB), ora de “irmão de Tiago” (Jd 1). Por isso, o parentesco exato deve ser entendido como tradição, e não como um dado bíblico certo.

A Carta de Judas

A tradição da Igreja atribui a Judas Tadeu uma das cartas do Novo Testamento, a Carta de Judas, um texto curto de apenas 25 versículos. Ela começa assim:

“Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos eleitos bem-amados em Deus Pai e guardados para Jesus Cristo: a vós, misericórdia, paz e amor em abundância!” (Jd 1-2)

A Catholic Encyclopedia explica que a maioria dos comentaristas católicos identifica o autor da carta com o apóstolo “Judas, filho de Tiago”, também chamado Tadeu, e considera essa identificação “muito provável”. A carta faz parte do cânon do Novo Testamento. O Fragmento Muratoriano, por volta do ano 170, já a aceitava como apostólica.

Segundo Bento XVI, a carta não é dirigida a uma Igreja local, mas a um público amplo de cristãos. O autor alerta contra pessoas que se infiltravam nas comunidades, desviavam os fiéis e provocavam divisões. Contra isso, ele exorta à fidelidade e à oração:

“Vós, porém, caríssimos, edificai-vos sobre o fundamento da vossa santíssima fé e orai, no Espírito Santo, de modo que vos mantenhais no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna. E aos que estão com dúvidas, tratai com misericórdia.” (Jd 20-22)

A carta termina com um belo louvor: “ao Deus único, que nos salva por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor: glória, majestade, domínio e poder, desde antes de todos os séculos, e agora e por todos os séculos. Amém” (Jd 25).

Pregação e martírio segundo a tradição

Depois de Pentecostes, a Bíblia não volta a falar de Judas Tadeu. O que sabemos sobre a sua missão vem da tradição, que não é uniforme.

Segundo o Vatican News, depois que os apóstolos deixaram Jerusalém, Judas Tadeu partiu da Galileia e da Samaria rumo à Síria, à Armênia e à antiga Pérsia. Ali teria encontrado Simão, e os dois juntos teriam levado muitos ao batismo. A coletânea Lives of Saints menciona ainda a pregação na Judeia, na Samaria e na Mesopotâmia.

Sobre a morte, a tradição mais difundida no Ocidente diz que Simão e Judas foram martirizados juntos na Pérsia, por se recusarem a renegar Cristo e a prestar culto aos ídolos. O Vatican News cita São Venâncio Fortunato, bispo de Poitiers no século VI, segundo o qual os dois apóstolos foram sepultados em Suanir, na Pérsia, onde receberam a palma do martírio. A coletânea Lives of Saints e a Catholic News Agency registram outra tradição, segundo a qual Judas teria morrido em Beirute; a agência situa o martírio por volta do ano 65.

As relíquias de São Judas Tadeu e de São Simão são veneradas hoje na Basílica de São Pedro, no Vaticano, como informa o Vatican News.

E a canonização?

São Judas Tadeu não passou por um processo de canonização como os santos dos séculos recentes. Os apóstolos são venerados pela Igreja desde a Antiguidade, muito antes de existir o processo formal de canonização.

Um sinal antigo desse culto está na própria Missa. A Oração Eucarística I, o Cânon Romano, recorda os apóstolos pelo nome, e entre eles estão “Simão e Tadeu”. Hoje, a Igreja os celebra com uma festa no Calendário Romano Geral, em 28 de outubro.

Por que é o santo das causas impossíveis?

O título de padroeiro das causas impossíveis, ou dos casos desesperados, não vem da Bíblia nem de um decreto da Igreja. Ele nasceu da devoção popular ao longo dos séculos, e as fontes apontam mais de uma raiz para ele.

A primeira tem a ver com o nome. Segundo o Vatican News, a homonímia com o traidor fez com que Judas Tadeu recebesse pouca devoção, sobretudo na Idade Média. Durante muito tempo ele foi um apóstolo pouco lembrado, e a devoção a ele cresceu mais tarde.

A segunda é uma antiga tradição ligada à cidade de Edessa, na Mesopotâmia. Como conta a Catholic News Agency, o historiador da Igreja Eusébio de Cesareia narra que o rei Abgar V de Edessa, que sofria de uma doença dolorosa e incurável, escreveu a Jesus pedindo uma visita, e Jesus respondeu que lhe enviaria um discípulo. Depois da Ascensão, segundo essa tradição, Tadeu foi a Edessa, impôs as mãos sobre o rei e ele ficou curado. A tradição identifica esse Tadeu com o apóstolo, e a agência associa a esse episódio a fama de São Judas nas situações “impossíveis”.

A devoção cresceu muito no século XX. Nos Estados Unidos, por exemplo, o padre claretiano James Tort fundou em 1929, em Chicago, o Santuário Nacional de São Judas, que se apresenta como dedicado ao “padroeiro da esperança e das causas impossíveis”. Segundo a revista U.S. Catholic, o padre Tort pedia a intercessão do santo pelos paroquianos, muitos deles operários do aço que enfrentavam o desemprego.

Para o cristão, invocar São Judas não é buscar uma solução “mágica”. É pedir a intercessão de um apóstolo que conviveu com Jesus, ouviu dele que o Pai faz morada em quem ama a sua palavra, e escreveu aos fiéis que se mantivessem “no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo” (Jd 21).

Como São Judas Tadeu é representado

O Santuário Nacional de São Judas, dos Missionários Claretianos, lembra que ele costuma ser retratado com uma imagem de Jesus junto ao peito. O santuário liga esse detalhe à mesma tradição de Edessa: o rei Abgar teria recebido do apóstolo um pano com a imagem do rosto do Senhor e ficado curado. Trata-se de uma lenda transmitida pela tradição, e não de um relato bíblico.

Segundo a Catholic News Agency, ele também aparece muitas vezes com um porrete ou machado, que remete à forma do seu martírio, e com uma chama sobre a cabeça, sinal do Espírito Santo recebido em Pentecostes.

São Judas Tadeu, rogai por nós!

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